Inteligência Artificial em Compras: como Procurement está redefinindo seu papel estratégico

Por Roberto D´Alessandro, CRO da iblue.

A área de Procurement está ampliando seu papel nas organizações. Redução de custos continua relevante, mas agora divide espaço com governança, automação, eficiência operacional e decisões orientadas por dados.

Durante muito tempo, a área de Compras foi associada principalmente a negociação, redução de custos, homologação de fornecedores e gestão contratual.

Essas responsabilidades continuam essenciais, mas a conversa está mudando.

Ao acompanhar discussões recentes entre líderes e profissionais de Procurement, percebemos um movimento semelhante ao que já vem acontecendo nas áreas de Tecnologia: a Inteligência Artificial deixou de ser tratada apenas como uma ferramenta e passou a provocar uma revisão mais profunda dos processos, das decisões e do próprio papel de Compras dentro das empresas.

O debate já não se resume a:

  • Qual plataforma adotar?
  • Qual processo automatizar?
  • Como reduzir o tempo das atividades operacionais?

As perguntas estão ficando mais estratégicas:

  • Onde a automação realmente gera valor?
  • Quais decisões podem ser delegadas a agentes?
  • Em quais etapas a aprovação humana continua indispensável?
  • Como garantir rastreabilidade, governança e segurança?
  • Como integrar Procurement às prioridades de Tecnologia e do negócio?

Essa mudança mostra que Compras está entrando em uma nova fase de maturidade.

Redução de custos continua importante, mas já não explica todo o valor

Savings, eficiência nas negociações e controle do spend continuam sendo indicadores centrais para Procurement.

No entanto, limitar a contribuição da área à redução de custos já não representa todo o seu impacto.

Compras participa diretamente de decisões que afetam:

  • continuidade das operações;
  • exposição a riscos;
  • capacidade de inovação;
  • velocidade de transformação;
  • qualidade dos fornecedores;
  • eficiência dos investimentos;
  • sustentabilidade do negócio.

Quando uma empresa escolhe um parceiro de tecnologia, por exemplo, não está apenas contratando horas, licenças ou capacidade operacional.

Está tomando uma decisão que pode influenciar arquitetura, escalabilidade, segurança, integração, produtividade e capacidade futura de inovação.

Por isso, Procurement começa a ser chamado para participar mais cedo das discussões.

Não apenas para negociar uma demanda já definida, mas para ajudar a estruturar a melhor decisão.

A IA está expondo os gargalos reais dos processos de Compras

A adoção de Inteligência Artificial em Procurement avança em diferentes frentes.

Já existem iniciativas envolvendo:

  • abertura e validação de requisições;
  • leitura e análise de contratos;
  • comparação entre fornecedores;
  • elaboração de sumários executivos;
  • apoio à negociação;
  • classificação de despesas;
  • avaliação de risco;
  • automação de aprovações;
  • acompanhamento do ciclo de sourcing.

Mas os projetos mais maduros estão revelando algo importante: implementar um agente não elimina automaticamente as limitações do processo.

Em muitos casos, a tecnologia apenas torna os gargalos mais visíveis.

Uma requisição incompleta continua sendo incompleta, ainda que lida por IA.

Uma política ambígua continua gerando dúvidas, mesmo quando automatizada.

Um fornecedor que não adere ao fluxo digital continua exigindo contatos paralelos.

Uma cadeia de aprovações mal desenhada continua causando lentidão.

A IA pode acelerar processos bem estruturados. Mas também pode escalar inconsistências, retrabalho e decisões mal definidas.

Por isso, o trabalho real começa antes da automação.

Começa no redesenho da operação.

Governança deixou de ser apenas controle

Outro tema que ganhou protagonismo nas discussões de Procurement é a governança.

Historicamente, ela esteve muito relacionada a políticas, compliance, segregação de funções e auditoria.

Esses elementos continuam fundamentais.

Entretanto, em um ambiente com automações, integrações e agentes inteligentes, a governança passa a exercer uma função adicional: definir os limites da autonomia.

É preciso estabelecer com clareza:

  • o que um agente pode executar sozinho;
  • quais decisões exigem aprovação humana;
  • quais dados podem ser utilizados;
  • como cada ação será registrada;
  • quem responde por uma decisão automatizada;
  • quais critérios devem interromper o processo;
  • como tratar exceções.

Governança, nesse contexto, não limita a inovação.

Ela cria as condições para que a automação avance com segurança.

Quanto mais distribuídas e automatizadas se tornam as decisões, maior a necessidade de critérios claros, rastreabilidade e responsabilidade.

Compras de tecnologia exige uma discussão diferente

Esse movimento se torna ainda mais relevante nas compras relacionadas à Tecnologia.

Durante anos, muitas contratações foram estruturadas principalmente em torno de:

  • alocação de profissionais;
  • body shop;
  • fábrica de software;
  • sustentação;
  • BPO;
  • licenciamento;
  • infraestrutura.

Esses modelos continuam presentes, mas já não são suficientes para representar a complexidade das decisões atuais.

Hoje, as áreas de Tecnologia discutem plataformas de dados, cloud, segurança, integração, observabilidade, IA, agentes, modernização de aplicações e transformação dos modelos operacionais.

Consequentemente, Procurement precisa ampliar também seu repertório.

Não basta comparar preço por hora ou volume de recursos.

É necessário compreender:

  • qual problema de negócio está sendo resolvido;
  • quais capacidades estão sendo adquiridas;
  • como a solução se integra ao ambiente existente;
  • quais dependências futuras serão criadas;
  • quais riscos técnicos e operacionais estão envolvidos;
  • como medir o valor entregue;
  • qual modelo contratual favorece evolução e resultado.

A melhor compra de tecnologia nem sempre é a de menor preço.

É aquela que equilibra custo, capacidade de entrega, risco, sustentabilidade da solução e impacto para o negócio.

De executor de pedidos a parceiro da transformação

A evolução de Procurement pode ser resumida em uma mudança de postura.

A área deixa de atuar apenas depois que a decisão já foi tomada e passa a contribuir para a construção da decisão.

Isso exige mais proximidade com Tecnologia, Operações, Finanças, Jurídico e áreas de negócio.

Exige também novas competências:

  • leitura de dados;
  • inteligência de mercado;
  • visão de risco;
  • entendimento de modelos tecnológicos;
  • gestão da mudança;
  • capacidade de avaliar valor, e não apenas preço;
  • habilidade para construir relações estratégicas com fornecedores.

O fornecedor, nesse cenário, também deixa de ser apenas uma parte contratada.

Em muitos casos, passa a ser uma fonte de inovação, conhecimento e capacidade de transformação.

A gestão dessa relação se torna tão importante quanto a negociação inicial.

O novo valor de Procurement

A IA não está reduzindo a importância da área de Compras.

Está ampliando sua responsabilidade.

Quanto mais processos podem ser automatizados, mais relevante se torna a capacidade humana de definir critérios, interpretar contexto, avaliar riscos e tomar decisões estratégicas.

A redução de custos continuará fazendo parte da agenda.

Mas passará a dividir espaço com outras perguntas:

  • Essa contratação acelera a estratégia da empresa?
  • Reduz complexidade ou cria novas dependências?
  • Aumenta a eficiência sem comprometer a governança?
  • O fornecedor está preparado para evoluir junto com o negócio?
  • Estamos comprando recursos ou construindo uma capacidade?

Talvez essa seja a principal mudança em curso.

Procurement deixa de ser reconhecido apenas pelo que economiza.

Passa a ser reconhecido também pelo que viabiliza.

E, em um cenário de transformação acelerada, essa capacidade pode se tornar um dos maiores diferenciais estratégicos das organizações.